O poema/canção "Guia Resumido para Trolls das Cavernas" de Michel F.M. (pseudônimo de Bruno Michel Ferraz Margoni) é uma peça satírica e contemporânea que utiliza o anacronismo (mistura de elementos medievais e modernos) para criticar a superficialidade das conexões humanas na era digital.
Aqui está uma análise dos principais eixos da obra:
1. A Inversão do Mito e do Conto de Fadas
O autor subverte o tropo clássico da "donzela em perigo":
A Protagonista Ativa: Ela não espera o resgate; ela sobe a torre para "salvar o Dragão" ou, em uma reviravolta final, para que o Dragão se atire "em suas garras" [1, 5].
O Dragão Humanizado: O monstro aparece como uma figura vulnerável, enquanto a figura feminina assume uma força destrutiva e libertadora, incendiando símbolos da domesticidade e da fantasia passiva ("abóboras, vestidos, armário") [5].
2. Crítica à Era Digital e ao "Troll"
O título "Guia Resumido para Trolls das Cavernas" estabelece o tom. O poema transita entre a "caverna" platônica (onde se vende luz por iluminação) e o ambiente tóxico da internet:
Moeda de Troca: O autor explicita o cansaço com a economia da atenção: "Troco likes e compartilhamentos por momentos sinceros" [4].
O "Embromão": O poeta se autodeprecia como um farsante, sugerindo que a própria arte pode ser um "compromisso existencial tolo" diante da frieza das interações virtuais [4].
3. O Conflito entre Essência e Aparência
O texto explora o abismo entre o que se comunica e o que se sente:
Cinismo: A abertura "unindo o inútil ao desagradável" inverte o ditado popular, sinalizando uma visão pessimista da nova "dimensão" social [1].
Desconexão: O pedido por "contato visual" e "discrição" sugere uma busca por intimidade real em um mundo de "farsas eternas" e "traduções literais" que falham em traduzir o sentimento humano [4, 5].
4. Estrutura e Estilo
O poema utiliza o refrão ("No andar mais alto / Da torre mais alta") para criar um ritmo de balada clássica, mas o quebra constantemente com termos modernos e coloquiais.
O fechamento é irônico: a "salvação" do dragão não é um ato de caridade, mas uma união de forças que rompe com cultura e tradição [5].
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Para aprofundar a análise de "Guia resumido para Trolls das Cavernas", é preciso observar como Michel F.M. utiliza camadas de ironia e simbolismo para diagnosticar o que ele chama de "nova dimensão" social.
Aqui estão quatro pontos fundamentais para uma compreensão mais densa:
1. A Caverna como "Espetáculo" (Referência Platônica)
O poema dialoga com o Mito da Caverna de Platão, mas com um toque de cinismo contemporâneo.
A Troca Corrompida: Enquanto em Platão o objetivo é sair da caverna em busca da luz (verdade), no poema a luz tornou-se uma mercadoria: "vende-se luz em troca de Iluminação".
O Simulacro: A "nova dimensão" mencionada na primeira estrofe sugere que vivemos em um mundo de sombras digitais onde a iluminação (sabedoria/consciência) foi substituída pelo consumo de "luz" (telas, visibilidade, brilho superficial).
2. A "Farsa do Poeta" e o Eu Lírico
O eu lírico se coloca em uma posição de vulnerabilidade e autocrítica:
O Embromão: Ao se definir como um "reles embromão", o autor questiona a validade da própria poesia em um mundo onde tudo é performance. Ele admite que a arte pode ser apenas mais uma das "farsas eternas".
O Binômio Tristeza/Felicidade: A antítese "Ninguém foi mais triste... e ninguém foi mais feliz" evoca a ideia de que o poeta é aquele que sente o peso da realidade (tristeza) ao mesmo tempo em que detém o poder de criar mundos (felicidade), mesmo que estes sejam "extintos" ou "tolos".
3. O Dragão como Liberdade e Caos
A repetição do refrão sobre a "torre mais alta" serve para mostrar a evolução da personagem feminina:
Desconstrução do Resgate: Inicialmente ela sobe para "salvar o dragão". O dragão aqui simboliza o instinto, o selvagem ou o que há de autêntico, que está preso pela "cultura e tradições".
O Incêndio dos Símbolos: Ao incendiar "abóboras" e "vestidinhos", ela destrói os ícones da feminilidade passiva (Cinderela/Contos de Fadas). O final — "o Dragão se atirou em suas garras" — inverte a relação de poder: ela não é a presa, ela é a força que domina o próprio caos.
4. Linguagem e Metrificação
O poema oscila entre o registro lírico e o vocabulário da rede:
Contraste Lexical: O uso de palavras como "likes", "compartilhamentos" e "trolls" ao lado de termos como "compromisso existencial" e "discrição" cria um choque térmico literário.
O "Cara Durão": O endereçamento ao "cara durão" (o troll, o crítico insensível da internet) serve como um espelho. O poema avisa que ele está contemplando algo "definitivamente extinto": a sensibilidade bruta, que não cabe em métricas de engajamento.
Michel F.M., através da obra Pacífico em Brasas, parece sugerir que, para sobreviver a essa "nova dimensão", é necessário abandonar as velhas traduções literais e, se necessário, "incendiar o armário" para abraçar a própria natureza, por mais monstruosa ou "dragônica" que ela pareça para a sociedade.
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Guia resumido para Trolls das Cavernas
(Michel F.M.)
Unindo inútil e desagradável,
Comunicamos que estamos
Sob nova dimensão.
Salve o pegajoso e apalpável.
Aqui, vende-se luz
em troca de Iluminação.
No andar mais alto
Da torre mais alta,
Ela subiu, para salvar o Dragão.
Troco likes e compartilhamentos,
Por momentos sinceros e um toque
De envolvimento emocional,
Ou ao menos,
Uma chance de estabelecer,
Ainda que tolo,
Um compromisso existencial.
Mantenha o contato visual
Enquanto toco, em troca de discrição,
Entre o que não sente e o que se diz.
Ninguém foi mais triste
que o poeta nesta vida,
e ninguém, foi mais feliz.
Um mero e reles
Embromão.
Ignore os dilemas
Das farsas eternas,
Estás a contemplar
O definitivamente extinto,
Cara durão.
No andar mais alto
Da torre mais alta,
Ela subiu, para se jogar
Aos braços do Dragão.
Nem cultura ou tradições foram páreo,
Rompendo traduções
Literais e suas amarras,
Ela simplesmente incendiou
Abóboras, vestidos, armário
E o Dragão se atirou em suas garras.
No andar mais alto
Da torre mais alta,
Ela subiu, para salvar o Dragão.
(Pacífico em Brasas - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2017)
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