Göshua,
o Ex-vampiro de Malggamena
Diabólico-trevoso,
De perversidade maligna;
Adjetivos assombrosos
Que jamais o definiriam.
Foste ele em verdade,
Um pobre diabo assustado,
Sem beira nem caldeira.
Desajustado-imperceptível,
Aprisionado em teus desfeitos,
Estupidamente desacorçoado,
Defeituoso por insistência,
Praticante assíduo da mediocridade,
Próximo à decrepitude, gasoso,
Era névoa tóxica engarrafada.
Hermeticamente-fechado-em-si,
Rosqueado pela fadiga mental,
Até quase espanar; letárgico,
Com um léxico decrescente,
Numa autobiografia composta
Por palavra nenhuma, só o vácuo.
Nem pro título, desenvoltura possuía.
Alongados-pontiagudos
Haviam sido; num pretérito o despeito;
Dos caninos teus, restava memória;
Aos molares corroídos, desmantelados,
Já não mais cúspides, apenas obturações
E ressentimento. Os incisivos postos
À retaguarda, não mais de fronte.
Infantilidade-mordaz,
Havia-o consumido quase que
Inteiramente, completamente,
Eficazmente; mas o incrível fio-condutor
Da realidade era suculento,
Não restando-lhe opção outra
A não ser abocanhá-lo,
Permitindo-se a eletrocussão integral.
Figura-de-ação-na-prateleira;
Estático em inatividade intacta,
Fazendo da fantasia poeira.
Por ter sido concebido, gerações antes
Desta, onde tudo é portátil e estilizado,
Colapsou a dinâmica, despersonalizou.
Em-meio-à-crise-identitária,
Sem fortificadas mandíbulas,
Numa atmosfera deprimente,
Esclareceu o quão confusa parecia
A protuberante confusão sem igual,
Constatando que o fio da meada,
Havia desaparecido por inteiro há tempos.
Sua-expressão-fantasmagórica,
Com uma olhadela amarrotada,
Que um dia fora marota, mas neste
Último quarto de século apresentava-se
Desgastada, embutida e descascada.
Naquele redemoinho de clemência,
Uma postura neogótica, escoliótica, arqueada.
Graças-ao-bolor-mofado-da-cripta,
Sofria duma crônica inflamação pulmonar,
Asmática, produzindo muco e secreções;
Aprendeu a duras penas, que a ventilação
Se faz essencial em ambientes
Compactos, pouco arejados e úmidos,
Evitando com ineficácia a temerosa insalubridade.
A luz solar não lhe parecia tão violenta,
Quanto a insônia que o açoitava,
Torturante, arrancava-lhe o descanso,
Perseguindo noite a dentro, fazendo-o
Involuntariamente repousar de dia.
Chiroptera rastejante, outrora um mamífero voador.
O tempo, agindo implacavelmente,
Cravou tuas presas nele, sugando-o,
Irrigando os sabres do esquecimento,
Apoderou-se de suas açucaradas
Lembranças perniciosas, nocivas,
Voluptuosas, lascivas, sensuais.
Pobre alma, desalmada,
Reprimida, escorraçada, despossuída;
Cercada numa quina feito traça;
Aplacada por um severo astigmatismo,
Já não mais via com a mesma nitidez;
Devido a ingestão de um coquetel
Excessivo, dos tipos sanguíneos variados,
Acometeu-lhe uma cirrose hepática.
Sendo enfim, vítima de si mesmo;
Göshua faleceu; pela segunda vez nesta semana.
(Michel F.M. - Pacífico em Brasas - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2017)
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